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	<title>cultura - Mateus Salvadori</title>
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	<title>cultura - Mateus Salvadori</title>
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		<title>Linguagem e processos culturais: a linguagem como condição de cultura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Mateus Salvadori]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Jan 2023 21:27:54 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[antropologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste texto é realizar um estudo da relação entre linguagem e cultura por meio da Linguística e da Antropologia. Buscar-se-á responder as seguintes questões: (a) Qual é a importância da linguagem para a transmissão das informações culturais de geração para geração? (b) Qual é a força semiológica dos domínios da raça, da língua&#8230;&#160;<a href="https://mateusalvadori.com.br/linguagem-e-processos-culturais-a-linguagem-como-condicao-de-cultura/" class="" rel="bookmark">Continue a ler &#187;<span class="screen-reader-text">Linguagem e processos culturais: a linguagem como condição de cultura</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O objetivo deste texto é realizar um estudo da relação entre linguagem e cultura por meio da Linguística e da Antropologia. Buscar-se-á responder as seguintes questões: (a) Qual é a importância da linguagem para a transmissão das informações culturais de geração para geração? (b) Qual é a força semiológica dos domínios da raça, da língua e da cultura? É possível, a partir do pensamento de Franz Boas, realizar uma abordagem cultural por meio da abordagem linguística? (c) A interface linguagem, cultura e cognição pode ser explicitada a partir do estudo dos modelos culturais? (d) As concepções de linguagem e cultura formuladas por Lévi-Strauss devem-se à aplicação do método estrutural transportado da fonologia?</p>



<p>As hipóteses das questões acima são as seguintes: (a) É por meio da linguagem que as informações culturais são transmitidas de geração para geração; (b) Cultura e língua se ligam de modo indissociável, mas não sem problemas. Boas separou os domínios da raça, da língua e da cultura, atribuindo força semiológica própria a cada um. Esta separação implicou em achado epistemológico: a abordagem cultural por meio da abordagem linguística. O fenômeno cultural passou a ser visto como a imposição de significados convencionais ao fluxo da experiência e a língua é justamente a imposição de significado aos sons; (c) Os modelos culturais são estudados na interface linguagem, cultura e cognição. A partir deles é constituída a ontologia de diferentes modelos teóricos na Antropologia, nas Ciências Cognitivas e na Linguística; (d) A contribuição da Linguística para a Antropologia, segundo Lévi-Strauss, está sustentada na hipótese da analogia entre as estruturas da linguagem e da cultura, considerando-se a estrutura dos sistemas fonológicos como modelo lógico em que é possível definir a estrutura dos fenômenos da cultura.</p>



<p>Por meio do estudo da linguagem, uma filosofia das formas simbólicas é alcançada. Os processos mentais antropológicos voltados para a linguagem revelam as sintaxes das diversas culturas. As informações culturais, transmitidas de geração para geração, são passadas por mecanismos linguísticos. Portanto, pode-se afirmar que é por meio da linguagem que os seres humanos traduzem o mundo a sua volta. Segundo Cassier, “toda linguagem é metafórica” (1972, p. 172) e nela reside a força do mito. Derrida (1971), Cassirer (1972b) e Eliade (1972) concordam com isso. Portanto, é a Antropologia e não a Metafísica que está no centro de uma teoria da linguagem. Por exemplo, ao analisar a cultura ocidental, verifica-se que a linguagem é central nos processos descritivos que revelam as formas e os conteúdos significativos.</p>



<p>Para Foucault (1966) e Deleuze (1976), por exemplo, a escrita precede a fala. Portanto, não é apenas na linguística que há razões de nossa estrutura simbólica. Keesing diz que “a linguagem é uma forma do comportamento aprendido e, assim, é reconhecida pelos antropólogos como um aspecto da cultura”. (1961, p. 551). Fica provada, portanto, que a Antropologia tem uma função central no estudo da Linguística. Lévi-Straus ressalta que “no nível da observação, a regra principal poder-se-ia mesmo dizer a única – é que todos os fatos devem ser exatamente observados e descritos, sem permitir que os preconceitos teóricos alterem sua natureza e sua importância”. (1975, p. 317). Hymes também salienta que “enquanto é tarefa da Linguística coordenar o conhecimento da linguagem do ponto de vista da linguagem, é tarefa da Antropologia coordenar o conhecimento da linguagem do ponto de vista do Homem”. (1966, p. 185). E Geertz diz que a Antropologia tem como finalidade o alargamento do universo do discurso humano. (1973, p. 14).</p>



<p>Portanto, a relação entre linguagem (Linguística) e cultura (Antropologia) é fundamental para o desenvolvimento de uma teoria da Linguagem e dos Processos Culturais. Franz Boas ressalta que a língua é justamente a imposição de significado aos sons. Esta distinção entre os campos da linguística, da antropologia cultural e da antropologia física envolvem questões subjacentes que podem ser comuns, mesmo assim não devem ser confundidas por mútua interferência. De acordo com a perspectiva escolhida pelo pesquisador, qualquer classificação da humanidade baseada na língua e na cultura levam efetivamente a resultados distintos. As ciências humanas, no séc. XIX, confundiam raça e cultura, submetendo a noção de cultura à de raça. Boas fundou um estudo que, a partir do conceito de cultura, realiza-se uma abordagem cultural biológica e linguística. Cultura e língua devem ser pensadas e analisadas em correlação.</p>



<p>Lévi-Strauss, devido sua contribuição para o estudo da Antropologia Estrutural, será, além de Boas, importante para o desenvolvimento da problemática proposta neste texto. Lévi-Strauss entende a linguagem como condição de cultura. A linguagem é compreendida como formalmente análoga à cultura. As arquiteturas são, segundo o antropólogo, similares. Ele supõe encontrar na estrutura dos sistemas fonológicos o modelo lógico por meio do qual é possível encontrar a estrutura dos fenômenos da cultura. Com isso, o seu estruturalismo estabelece uma relação entre linguagem e cultura.</p>



<p>Faz-se necessário entender inicialmente o pensamento de Franz Boas acerca da relação entre cultura e linguagem; após, o que alguns teóricos entendem por modelos culturais, tais como Bennardo e Munck (2014), Kronenfeld (2008), D’Andrade (1987), Quinn e Holland (1987), Strauss (2014), Kövecses (1995), Geeraerts (2004) e Palmer (2007); e, por fim, analisar o pensamento estruturalista de Lévi-Strauss. Com isso, almeja-se dissertar sobre alguns elementos centrais do debate da relação entre Linguagem e Processos Culturais, tendo como objetivo explicitar que a linguagem deve ser entendida como condição de cultura.</p>



<p>A palavra cultura, desde a Idade Média, pertence ao domínio da agricultura e tem como significado “cultivo”. A partir do séc. XVI, a palavra começou a ser usada no sentido metafórico do cultivo das faculdades humanas via a educação e a arte. No séc. XVIII, com Herder, cultura passou a significar as realizações espirituais, religiosas e artísticas de um povo e o espírito de uma nação. E é justamente com Herder que há o germe do conceito que a antropologia desenvolveu no séc. XX, com Franz Boas. As ideias evolucionistas, de Frazer e Morgan, por exemplo, foram suplantadas, no séc. XX pelas ideias culturalistas, estruturalistas, funcionalistas e foram atualizadas pelas concepções neoevolucionistas. Há três significados da ideia de Cultura na segunda metade do séc. XIX, a saber, <em>Kultur</em>, <em>Zivilization</em> e <em>Bildung</em>.</p>



<p><em>Kultur </em>significa solidariedade e reciprocidade típicas de trocas familiares e de parentesco. Além disso, abrange também a compreensão histórica de sociedades como a indígena em geral, a urbana na Antiguidade, a <em>pólis</em> grega ou romana, o Antigo Egito ou Mesopotâmia etc. <em>Kultur</em> se aproxima do conceito <em>Gemeinschaft</em>, que significa comunidade, formulado por Ferdinand Tönnies em 1895, na obra <em>Gemeinschaft und Gesellschaft</em>. <em>Zivilization </em>destaca a racionalidade e a previsão, comum nas grandes culturas urbanas, com vocação a uma natureza individualista, cosmopolita e expansionista. Esse conceito se relaciona com <em>Gesellschaft</em>, de Tönnies, significando sociedade, oposto a comunidade. Por fim, <em>Bildung</em> trata da existência das formas particulares da vida psíquica e espiritual, envolvendo o caráter intelectual e sentimental de um povo. Franz Boas toma o conceito <em>Bildung </em>como crucial no seu pensamento. Boas desenvolve grandes avanças nas áreas da antropologia cultural, da antropologia física e da linguística.</p>



<p>Antes da publicação do <em>Curso de Linguística Geral</em>, de Saussure, em 1916, Boas trilhou um campo novo na linguística contemporânea. No artigo <em>On Alternating Sounds</em>, ele destacou que assim como os psicólogos encontraram uma “cegueira de cor”, os linguistas podem cunhar “cegueira de som” (surdez). A linguagem do falante não pode ser considerada a que o ouvinte ouve, pois há uma descontinuidade na troca linguística. A língua não é especialidade apenas do linguista, mas também da antropologia. Portanto, ela tem um peso singular na antropologia boasiana. A pesquisa das relações entre fenômenos linguísticos e culturais sob diferentes perspectivas teóricas e metodológicas justifica-se, pois a interface entre linguística e antropologia é relevante para mapear diferentes concepções de modelos culturais e métodos que permitem ao investigador reconstruí-los a partir de manifestações linguísticas.</p>



<p>A boa etnografia depende do conhecimento do povo estudado na pesquisa de campo. Segundo Boas, cultura e língua se ligam de modo indissociável, mas não sem problemas. Ele separou os domínios da raça, da língua e da cultura, atribuindo força semiológica própria a cada um. Esta separação implicou em achado epistemológico: a abordagem cultural por meio da abordagem linguística. Em <em>On Alternating Sounds</em>, Boas enunciou a moderna visão antropológica da cultura. O fenômeno cultural passou a ser visto como a imposição de significados convencionais ao fluxo da experiência.</p>



<p>Os modelos culturais são estudados na interface linguagem, cultura e cognição. A partir deles é constituída a ontologia de diferentes modelos teóricos na Antropologia, Ciências Cognitivas e na Linguística. Alguns teóricos que explicitam o que são modelos culturais e qual é a sua importância são os seguintes: Bennardo e Munck (2014), Kronenfeld (2008), D’Andrade (1987), Quinn e Holland (1987), Strauss (2014), Kövecses (1995), Geeraerts (2004) e Palmer (2007). A compreensão do significado dos modelos culturais acaba sendo central para o presente texto.</p>



<p>O que são modelos culturais? Eis a visão de alguns teóricos acerca dessa pergunta. Bennardo e Munck, na obra <em>Cultural models</em>: genesis, methods, and experiences (2014) apresentam um manual sobre os fundamentos, teorias, métodos e aplicações acerca de modelos culturais. Para eles, os modelos são as representações compartilhadas pelos membros de uma cultura produzindo uma forma de comportamentos intencionais e comunicativos. Portanto, modelos culturais são uma organização de conteúdo cultural depositada no cérebro e não operações cognitivas. Utiliza-se os modelos culturais para verificar emoções, intenções e atitudes. Os autores definem os modelos da seguinte forma: organizações molares de conhecimento, cuja estrutura interna é composta de um núcleo (<em>core</em>) e nós periféricos que são preenchidos por valores padrão (<em>default</em>) (BENNARDO, MUNCK, 2014). Os modelos são relevantes na geração de comportamentos e na análise de uma cultura.</p>



<p>Para Kronenfeld, modelos culturais são modelos cognitivos que ditam regras sobre o comportamento. Em suas palavras, são “unidades básicas de conhecimento cultural no que se refere à ação”. (2008, p. 176). Assim, modelos culturais são esquemas amplamente compartilhados. Segundo D’Andrade, modelo cultural (modelo <em>folk</em>) é “um esquema cognitivo que é intersubjetivamente compartilhado por um grupo social”. (1995, p. 112). O esquema tem por característica ser uma organização abstrata da experiência. “Um esquema é intersubjetivamente compartilhado quando todos num grupo conhecem o esquema, e todos sabem que alguém mais sabe o esquema, e todos sabem que alguém sabe que alguém sabe que alguém sabe o esquema.” (D’ANDRADE, 1995, p. 113).</p>



<p>Quinn e Holland, na mesma linha de pensamento, dizem que modelos culturais “são pressupostos, modelos de mundo aceitos que são amplamente compartilhados pelos membros de uma sociedade e que desempenham um papel enorme em seu entendimento do mundo e seus comportamentos nele (1987, p. 04). Para os autores, os linguistas abordam os modelos como chave para o uso linguístico; já os antropólogos, tratam os modelos “como pistas para modelos culturais subjacentes, trabalhando em direção a uma teoria mais satisfatória da cultura e seu papel em tais tarefas não linguísticas [&#8230;], avaliando o comportamento de outros”. (1987, p. 24).</p>



<p>Strauss (2014) diz que modelos culturais devem ser entendidos a partir de esquemas culturais, que derivam da experiência compartilhada. Eles permitem explicar a forma como emoções e percepções são interpretadas e atuam na produção e interpretação de comportamento verbal e não verbal. Kövecses (1995) adota os modelos culturais como um conjunto de entendimentos compartilhados sobre o mundo. Diz ele:</p>



<p>“[…] na visão de cultura com a qual tenho trabalhado […] há uma noção [&#8230;] que desempenha um papel crucial: aquela de modelos culturais. Modelos culturais são importantes em nossas tentativas de descrever e caracterizar o sistema conceptual humano e, consequentemente, a cultura. […] Modelos culturais são melhor concebidos como quaisquer organizações coerentes da experiência humana compartilhadas por pessoas”. (1995, p. 193).</p>



<p>Geeraerts (2004) ressalta que modelos culturais podem ser entidades idealizadas, mas também ideológicas. São ideologias quando seu caráter idealizado é esquecido ou quando são utilizados de forma prescritiva ou normativa. No primeiro caso, uma ideologia é sempre, em certa medida, um acobertamento, um simulacro, uma deturpação deliberada da situação real, e uma descrição de tais ideologias devem ser necessariamente crítica. No segundo caso, uma ideologia é basicamente um guia para a ação social, um sistema compartilhado de ideias para a interpretação da realidade social a despeito da avaliação dos pesquisadores sobre essa perspectiva. Por fim, Palmer diz que “modelos cognitivos que são culturalmente específicos podem ser denominados modelos culturais”. (2007, p. 1046). Percebe-se que cada autor tem a sua visão do que são modelos culturais. Mesmo assim, podemos resumi-los a partir dos seguintes pontos:</p>



<p>“(a) a ideia de ser uma entidade idealizada com alto grau de simplificação; (b) a noção de esquemas cognitivos complexos, relativos a todos os domínios da experiência humana (perceptual, conceptual e sociocultural), que estruturam sistemas de conhecimento; (c) a condição de ser intersubjetivamente compartilhado em uma cultura, grupo social ou comunidade; (d) a relação com valores, motivação, objetivos, expectativas, sentimentos e emoções; (e) a função de organizar domínios de conhecimento de modo a servir de modelo para a eliciação e interpretação das ações humanas; (f) o entendimento de que pode ter natureza ideológica; e (g) a condição de não ser diretamente acessível, devendo ser “abstraído” ou “reconstruído” a partir da linguagem e/ou comportamento humano.” (FELTES, 2018, p. 198).&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por fim, como terceiro e último ponto, destaca-se o pensamento estruturalista de Lévi-Strauss. O problema da relação linguagem e cultura perpassa a história da antropologia. Tylor (1871) entendia a linguagem como parte da cultura. Boas, como já foi visto, supunha ser ela um de seus produtos. Já Whorf (1936) afirmava ser a cultura um produto da linguagem. E Linton (1936) dizia que a linguagem é apreendida como condição da cultura. Lévi-Strauss trata dessa problemática desde seus primeiros trabalhos. Para ele, “a linguagem e a cultura são duas modalidades de uma atividade mais fundamental: o espírito humano”. (1975, p. 89). Linguagem e cultura resultavam “do jogo de leis gerais” e correspondem a realidades de ordens distintas, mas do mesmo tipo e, portanto, interpretáveis a partir de um método comum. (LÉVI-STRAUSS, 1975, p. 49).</p>



<p>Lévi-Strauss, ao retomar a proposta de Saussure, buscava “uma ciência ao mesmo tempo muito antiga e muito nova”, uma Antropologia “em sentido mais lato”, uma ciência do Humano (1975, p. 99), ou, conforme Saussure, uma Semiologia que integrasse as conquistas da Linguística, da Antropologia e da Psicologia. Saussure dizia que a identidade de cada elemento linguístico acaba se definindo negativamente com relação àquilo que este elemento não é. Desta forma, cada elemento passa a ter a significação definida por suas relações com os demais, contendo, virtualmente a totalidade do sistema a que pertence.</p>



<p>É no estudo de parentesco que Lévi-Strauss vai encontrar a sua arena de reflexão sobre a relação linguagem e cultura. Há, no estudo de parentesco, duas ordens: a) um sistema terminológico (vocabulário); b) um sistema de atitudes (fenômeno cultural). Lévi-Strauss foca seus estudos na segunda ordem, a saber, na face não linguística do parentesco. Mas isso não significa que ele não trata também da primeira ordem, porém ele privilegia as estruturas de aliança e não as estruturas semânticas a elas correspondentes. Segundo o autor, um tributo aos resultados importantes obtidos e aos projetos fascinantes desenvolvidos por estudiosos que buscam a formulação de regras onde a coerência interna da nomenclatura do parentesco possa ser rigorosamente demonstrada.</p>



<p>Lévi-Strauss somou os princípios da linguística de Saussure à teoria da reciprocidade de Mauss a partir de seu <em>Ensaio sobre a dádiva</em>, de 1923. E concluiu que os sistemas matrimoniais poderiam ser considerados como sistemas de comunicação análogas às trocas de presente. Lévi-Strauss inovou, pois demonstrou que as unidades dos sistemas de parentesco não são as famílias isoladas, mas as relações entre essas e isso é similar à compreensão de Saussure acerca dos sistemas linguísticos. Lévi-Strauss comparou pessoas a elementos de uma linguagem.</p>



<p>Em sua obra <em>Antropologia estrutural</em>, Lévi-Strauss apresenta sua visão da estrutura social. Diz ele que a estrutura não se confunde com as relações sociais. A estrutura direciona-se ao plano de modelos, ou seja, às representações mentais, não limitando-se aos dados observados (empirismo estreito). Ela vai além das relações observadas e busca uma explicação – por meio de generalizações – das relações não observadas. Estrutura social é, assim, uma construção intelectual que elabora modelos a partir de relações sociais. Com isso, Lévi-Strauss realiza uma guinada epistemológica na Antropologia.</p>



<p>Concluindo, analisou-se, neste texto, as relações entre fenômenos linguísticos e culturais sob diferentes perspectivas teóricas e metodológicas a partir dos seguintes pontos: (a) Verificou-se a importância da linguagem para a transmissão das informações culturais de geração para geração; (b) Investigou-se o pensamento de Franz Boas, principalmente a relação entre&nbsp; raça, língua e cultura; (c) Analisou-se os modelos culturais e a relação entre linguagem (Linguística), cognição (Ciências Cognitivas) e cultura (Antropologia); (d) Estudou-se o sentido de tomar a linguagem corno condição de cultura por meio do pensamento estruturalista de Lévi-Strauss.</p>



<p>&nbsp;Como que cada ciência corresponde a um ponto de vista diante do mundo, os objetos de cada ciência decorrem desta perspectiva. Há, portanto, inúmeras estruturas. A sociedade passa a ser entendida como estruturável e uma mesma população, por exemplo, pode ser estudada pelo viés da história, da sociologia, da geografia, da economia e da antropologia. Em suma, a relação linguagem e processos culturais e o entendimento da linguagem como condição de cultura perpassa os seguintes pontos: a) a Antropologia Cultural de Franz Boas; b) o estudo dos modelos culturais e sua importância para a Antropologia, as Ciências Cognitivas e a Linguística; c) e, por fim, a Antropologia Estruturalista de Lévi-Strauss.</p>



<p><strong>Referências Bibliográficas</strong></p>



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